As Viúvas de Dom Rufia,<br>de Carlos Campaniço
Nascer pobre, criado aos tombos por tios tão desabrigados de fortuna como o fedelho que as andanças da vida lhes deixou entre tábuas, num Alentejo à míngua entre restos serôdios da Monarquia e a República a tentar juntar os cacos e erguer do caos um país mais asseado, não é sorte que se deseje a qualquer ser vivente. Sobretudo, quando essa jovem criatura, com as raízes nos tojos e nas ervas, se atrela a meninges rebeldes e basto delirantes.
Saído de supetão dos entraves de cueiros e papas de farelo, já Firmino António Pote manifestava tineta para desmandos e traquinices que não auguravam futuro conforme aos arrumados hábitos dos lugarejos rurais de um Alentejo cercado de latifúndios, cabos da ordem, muros de beatice e vastas planícies de fome. Crescido, mesmo aos tombos, Firmino olhou-se ao espelho, se espelho havia no casebre, e vê-se, aos trinta anos, escorreito de figura. Aplaina o viril traço do bigode, apura sorriso, que lhe parece catita e capaz de vergar qualquer dama carente e, neste narcísico deslumbre, deve ter considerado ser desperdício não pôr a render atributos tais ao invés de matar o corpo vergado em terra dura, de sol a sol, por parca côdea. Falho de letras, que era moléstia vasta nesses tempos, que não de neurónios acelerados e desejo a rebentar por crateras ferventes, Firmino pôs-se em campo, periscópio afinado em busca de amparo, noites resguardadas do frio das palhas, trincadeira mais conforme a corpo em crescimento, já aprumado de eixos e moldura e, para compor ramalhete, algum pecúlio para os gastos do dia e mudança de andrajos, mais conforme ao figurino e ambições.
E cai-lhe no prato, que é modo de dizer, a primeira vítima, nos conformes com os desígnios do nosso dom Juan das terras do Baixo Alentejo, vertido Dom Rufia, pelas incomuns proezas que o seu génio transformista não pára de congeminar: dona Domitília, viúva carente, noites insones e agitadas, sonhando o calor de um corpo viril que lhe alivie o peso do luto e lhe faça renascer as carnes túmidas de invernias sem data, senhora de pecúlio nutrido, jóias e automóvel, é a primeira a colar-se ao mel do nosso predador amoroso. Muitas outras vítimas do sedutor se seguirão, à medida das necessidades e dos disfarces que o nosso herói de entre enxergas, com os poderes de uma imaginação sem freio, vai congeminando: ourives, médico, advogado. Uma extensa galeria de personagens a que correspondem outras tantas mulheres caídas nas malhas, ou por desejo incontrolável, ou pelas necessidades básicas de sobrevivência com estilo, do nosso libertino. Nesta refrega de leitos e de andanças (por Almodôvar, Beja, Alandroal, Moura, tantas terras que o pesquisador do inverosímil Juan de los Fenómenos o julga possuidor do dom da ubiquidade), nem outros, marginais, parceiros do predador escaparam a tão devastador rol, como é caso, e pobre dele, do lacrimejante e sofrido Armindinho Costureirinha.
Toda a nudez será castigada, avisava Nelson Rodrigues, sabedor destas tarefas de alcova e seus trágicos desenlaces. E eis que o nosso homem se finou de morte matada e as «viúvas» acorrem em massa ao velório para descobrirem, com espanto, as patranhas do sedutor. E é neste cenário, caixão em casebre esconso, no regresso sereno de Firmino às suas origens, que o pícaro desta fala, o humor que a enforma, se desenvolve em pleno, até ao tanger das lágrimas.
Se o tom pícaro de As Viúvas de Dom Rufia, este recente romance de Carlos Campaniço, finalista do Prémio Leya, nos remete para o melhor da nossa tradição novelesca, de A Queda de Um Anjo, de Camilo, ao Eça de A Relíquia, O Primo Basílio e do Conde de Abranhos; se a pilhéria como modo de aferir um tempo e uma sociedade, a língua a mostrar-se audaz, plástica, móvel, a inventar-se e a transgredir-se sem pedir licença, nos remete a espaços para a escrita, em águas afins, do Hugo Santos de Campoamor e O Caçador de Olhos Abertos, de algum Afonso Cruz, ambos alentejanos como Campaniço; se escrever assim nos limites inventivos da metáfora, estrumada língua capaz de usança com extremo rigor mas igualmente solta para nos dar o que há de sibilino e voraz no narrar os excessos do desejo, do erotismo, do desenrasca como modo de sobreviver aos dias aziagos; se o corpo e seus arroubos, nesta fala desbragada e sedutora de Carlos Campaniço, é a personagem primeira e principal, condutora desta mística do prazer, de transgressão, a palavra inteira, afirmativa e límpida, que toca o fantástico e o absurdo, o mágico e o sensível como o riso sacana nos lábios traquinas de Firmino, é igualmente a fala de um autor que lhes conhece o peso, que as sabe moldar, que as tempera de húmus e ressonâncias que só a destreza oficinal permite. Este texto, que brinca com o idioma remoçando-o, é atravessado por uma polifonia de sons que remetem para o escárnio e maldizer trovadorescos, Bocage e Tolentino, Filinto Elísio ou Sebastião Xavier Semedo. Por ele, por estas páginas, andam as jogralescas formas de dizer o jocoso ou um sátiro Gil Vicente; mas é igualmente, e sobretudo, uma escrita sagaz, a roçar o que de melhor e mais inovador se produz na nossa actual ficção, desengomando a sintaxe, pela espessura do humor que a atravessa, a penetrar o cerne da capacidade inventiva desta língua nossa, a qual Campaniço trata a gosto e sem mácula.
Nesta escrita, em seu leito (e podemos tomar aqui este seu leito não apenas como metáfora, mas na sua impressiva linearidade), seu labor, revela-se o romance que ainda é possível ser assim e deslumbrar-nos – se o romance pode ser esta torrente de palavras enxutas e de estórias avassaladoras com viúvas pasmadas, pesquisadores de fenómenos que tocam o fantástico nas ruelas das cidades alentejanas, e reflectem sobre a fortuna acumulada e sua absurda usura, sabendo que «Ninguém é suficientemente rico para comprar todas as sombras, nem suficientemente poderoso para respirar todo o ar fresco da manhã», se este Alentejo de Campaniço não é só paisagem e deslumbre, casas caiadas e chão ermo, mas está prenhe de vida, de ressonâncias, de sangue e moldura humana a rebentar os limites da noite em gritos de prazer e de pilhéria; de desejos que ultrapassam o próprio passamento dos corpos; se as virgens se convertem às terreais fraquezas; se as mulheres mal-amadas e as viúvas precoces descobrem o prazer e nele renascem e sobem aos céus nas asas do sorriso safado de Dom Rufia, almocreve das almas em pousio; se este romance nos troca as vasas, balançando entre uma realidade transformada e a ficção plena – embora saibamos que o real é apenas aflorado para que a ficção se passeie ufana pelo virtuosismo da fala, e as fronteiras se diluem para nossa emocionada participação e prazer –, estamos perante obra modelar de forma e conteúdo.
As Viúvas de Dom Rufia, de Carlos Campaniço percorre, pelo humor, os territórios da transgressão erótica, da usança do corpo e das artes da sedução como moeda de troca, como modo sibilino de subir, horizontalmente, na vida. Mas, apesar da materialidade que subjaz aos impulsos primevos de Firmino, podemos inferir deste texto, servindo-nos de Luís Pacheco, que o «importante é pecar, pecar é viver; tudo o resto é uma espécie de morte», mesmo quando esta, morte, acontece para desatar os nós da sisudez e nos deixamos seduzir por essa torrente inventiva através da qual os corpos se dão, se espraiam, se extasiam nesta absorvente aventura de estar vivo e querer sorver, inteiro, o seu último rasto, o derradeira vagido.
As Viúvas de Dom Rufia,
de Carlos Campaniço
Edição Casa das Letras – Maio de 2016